Textos

Ela tá querendo sim!

No auge dos seus vinte e sete anos, Danilo era um homem cheio de atributos que faziam a cabeça das mulheres  e ele sabia muito bem apreciá-las. Treinava musculação cinco vezes por semana e fazia corridas matinais desde os dezessete. Tinha um corpo musculoso, marcado por tatuagens que cobriam seus grandes braços, além de muita energia física, que gastava muito bem com o trabalho, as atividades e, é claro, as mulheres. 

Mesmo tão jovem, já tinha um currículo amoroso invejável. Era um verdadeiro macho alfa.

No trabalho, onde havia conquistado o cargo de gerente com muito esforço e habilidade para lidar com as pessoas, era o rei das funcionárias. Todas as suas subordinadas já haviam dado em cima dele em algum momento. Muitas tiveram o prazer de usufruir de seu belo corpo e de suas habilidades sexuais. Outras, poucas, não conseguiram o mesmo êxito, apesar das tentativas, dos cumprimentos e dos sorrisos maliciosos. Mas Danilo estava em posição de escolher e preferia as mais bonitas. Loiras, baixinhas, de cabelos compridos até a cintura. Essas eram suas preferidas.

Apesar das distrações que as mulheres lhe causavam, Danilo era um excelente profissional. Havia chegado àquela empresa ainda muito novo e, pouco a pouco, fora subindo de cargo. Era responsável, simpático, bem-humorado. O dono da empresa logo criou por ele uma relação fraterna.

Era um mercado de alimentos de médio porte, com anos de estabilidade e a confiança da clientela. O cargo exigia alguém de confiança, e o dono gostava muito do rapaz. Era o filho que pedira a Deus e não obtivera. O filho que havia gerado, por outro lado, em nada correspondia ao que sonhara. Tímido, vivia no quarto, empanturrado de livros, e, naquela altura, o pai já sentia que ele não gostava de mulheres. Havia nascido com defeito. Já Danilo, esse sim era homem de verdade. Com ele, podia compartilhar os detalhes mais íntimos de suas aventuras com as amantes, enquanto a esposa cuidava do lar. Eram como bons pai e filho.

Para Danilo, também havia algo de fraterno naquela relação. Perdera o pai ainda na pré-adolescência, e aquele fora um momento muito difícil. Adorava passar tempo com ele. Fora o pai quem lhe ensinara a apreciar e a tratar as mulheres, um dos ensinamentos mais importantes que deixara, além de mostrar-lhe o papel de provedor da casa.

Quando o pai morreu, o menino se viu sozinho com a mãe, dona de casa, e logo chamou para si a responsabilidade de cuidar dela e oferecer o conforto que o pai proporcionava. Tratou de arranjar um trabalho, mesmo tão novo, para cuidar daquela mulher que respeitava tanto.Ela era diferente das outras. Não saía por aí dando mole para os homens na rua, como faziam com ele e com o pai. 

Danilo saía cedo para trabalhar e voltava tarde, pedalando sua bicicleta pelas ruas, para oferecer tudo de melhor àquela mulher. Todo o esforço do menino era reconhecido pela mãe, que o tratava com muito amor e cuidado. Fazia suas comidas da melhor maneira, deixava suas roupas cheirosíssimas e bem passadas e, quase sempre, defendia o filho das mulheres loucas e aproveitadoras que pareciam querer se aproximar dele.

Mas aquele esforço não era necessário. Danilo sabia que não podia confiar nas mulheres. Se as comprometidas estavam sempre se oferecendo para ele, imaginava que, caso decidisse assumir um compromisso com alguma, ela faria o mesmo com outros homens. Por isso, cuidava para que suas relações não passassem de encontros casuais, em motéis baratos, becos e até mesmo no estoque do trabalho.

Até hoje, no auge dos seus quarenta e sete anos, continua com a mesma premissa. Chegou a se juntar algumas vezes com mulheres que julgou serem menos safadas. Teve alguns filhos, mas nenhum relacionamento passou dos três anos. Acontecia que Danilo nunca conseguia se manter com uma única mulher, e elas estavam sempre atrás dele. Além disso, as mulheres com quem se juntara não o respeitavam. Queriam sair para trabalhar ou ir ao mercado sozinhas. Então ele sempre as mandava de volta para a casa das mães. Estava farto de mulheres sem discernimento dentro de um relacionamento. Por isso, hoje se arrepende profundamente de ter se envolvido com elas e de ter tido filhos. Está sempre relembrando os seus vinte e sete anos.

Não que hoje não seja mais cobiçado. Ainda é. Mas os vinte e sete foram o auge. Nunca esquecerá de certos momentos. Um deles, em especial, permaneceu estranhamente vivo na memória.

Tudo aconteceu em um dia de trabalho. Danilo, como gerente do mercado, voltava para casa às dez da noite de uma terça-feira, depois do fechamento do estabelecimento. Como de costume, estava em sua bicicleta quando, ao passar por um trecho deserto do bairro, onde não havia nada além de mata dos dois lados, ouviu, ao longe, uma voz feminina pedindo ajuda.

Aproximou-se para ver o que havia acontecido. Encontrou uma bela mulher ao redor de um carro.— O pneu furou — explicou ela. — Preciso só de alguém para pisar na chave de roda. O resto eu consigo fazer. 

Danilo olhou para a mulher. Era pequena, loira, de cabelos longos e olhos azuis. Logo entendeu o recado.

Ofereceu-se para fazer todo o trabalho, mesmo quando ela fez charme, dizendo que não precisava, que conseguiria trocar o pneu sozinha. Queria mostrar que sabia se virar, é claro. Se sabia mexer com pneus, aquelas mãos saberiam tocar em outras coisas. Danilo também sabia fazer joguinhos. Fez-se de desentendido, de quem só queria ajudá-la com a troca, como se não soubesse que aquele tipo adorava cair em seus braços, ainda fortes. A moça usava terno e uma camisa de mangas compridas por baixo. Logo tirou o paletó e dobrou as mangas para ajudá-lo. Danilo, então, tirou a camisa.

A moça não parava de avançar nas investidas. Tentava carregar o pneu, pegava uma ferramenta, procurava qualquer coisa para fazer ali perto. Danilo percebeu cada movimento. Naquele momento, já estava cheio de vontade dela.

Quando terminaram a troca, teve a certeza de que precisava cumprir o seu papel de homem. A mulher estava querendo muito. O auge das investidas veio quando ela lhe agradeceu com um aperto de mão. A pele não era tão macia quanto imaginara, mas gostou do toque. E do sorriso. Discreto, tímido, safado. Era o sinal de que Danilo precisava. Ele já estava com uma vontade descontrolada. Seu órgão estava rígido como uma madeira e se contraíra a cada movimento daquela mulher. 

Empurrou a moça contra o para-brisa do carro e passou a mão pelo seu corpo. A resposta veio na mesma hora. Ela o empurrou. — Você está interpretando errado. Eu não quero isso. 

Danilo continuou. Estava na cara, pensou  — Ela tá querendo sim!

Conforme avançava, a moça aumentava os joguinhos, empurrando-o e dizendo que não. Aquilo o deixava completamente louco de vontade. 

De repente,  sentiu uma dor.  Uma dor brutal, inesperada, que atravessou seu corpo de uma vez. Começou entre as pernas e desceu para as coxas, fazendo as forças desaparecerem.Danilo caiu no chão e levou as duas mãos ao corpo.

Antes que pudesse entender o que havia acontecido, sentiu dois dedos atingirem seus olhos. Tudo ficou escuro. Ficou largado no chão, gritando, tentando recuperar alguma orientação.

Quando finalmente conseguiu enxergar, ainda de maneira embaçada, viu apenas o carro se afastando em alta velocidade.

— Maluca!

E ali ficou por alguns minutos, esperando a dor passar e as forças voltarem.

Anos depois, assistindo a um filme, Danilo compreendeu o que recebeu. Era um golpe de krav magá. Até hoje, lembra daquela história sem entender muito bem o que aconteceu. 

Atualmente, Danilo ainda passa por momentos em que mulheres fazem joguinhos quando o veem. Mas, dessa vez, está mais atento às malucas.

Edilaine Andrade
Enviado por Edilaine Andrade em 12/08/2026
Alterado em 12/08/2026


Comentários