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Que sabor tem a pitaia?

Ângela era uma criança medíocre. Não me leve a mal. Acontece que Ângela era mediana em tudo o que era e em tudo o que se propunha a fazer. Na escola, não tirava notas baixas, mas também nunca passava da média 7 no boletim. Nas relações sociais, não era antipática, muito menos odiada ou algo do tipo, mas tinha poucos amigos e quase não era notada. Não havia como despertar reprovação quando mal se era percebida. Também não possuía talentos nem habilidades específicas. Era uma criança nada especial, exceto para a família. Afinal, para grande parte das famílias, as crianças que lhes pertencem são sempre especiais, não importa o quão medíocres possam parecer.

Com a família de Ângela não era diferente. Até porque a garota não dava trabalho em absolutamente nada. Nunca tinha disposição para brincar, gritar ou fazer bagunça. O tédio, o ócio e o silêncio lhe bastavam. Nada realmente a entretinha. Não tinha hobbies nem gostos definidos. Vivia no mundo da lua, desatenta a tudo o que fascinava as outras crianças e fazia com que elas atormentassem todos ao redor.

A vida de Ângela era sempre igual. Acordava pela manhã, fazia as tarefas da escola, ia para a aula, voltava para casa e permanecia no ócio do quarto até chegar a hora de dormir. Na manhã seguinte, repetia tudo. Acordava, fazia as tarefas, ia à escola, voltava e mergulhava novamente no vazio. No outro dia, a mesma coisa. Bom, você já sabe. A cena se repetia como uma espiral interminável.

Esse itinerário só mudava durante as férias escolares. Nessa época, a garotinha não passava o ócio apenas nas horas após a escola, mas durante o dia inteiro.

Tudo mudou quando, certo dia, ela foi apresentada a uma palavra. Sua amiguinha Ana chegou à escola depois de um fim de semana em que havia acompanhado a mãe em um trabalho extra. Contava, empolgada, sobre todo o conforto e os privilégios de que desfrutara na casa de praia dos patrões da mãe. Disse que havia entrado na piscina. Ângela não achou interessante. Considerava piscinas nojentas, por causa da completa falta de controle sobre o que as pessoas faziam debaixo d'água. Depois contou que havia comido doces e salgadinhos de festa. Ângela pouco se interessou. Quase não comia doces, a sede que eles lhe causavam a incomodava. Então Ana comentou, quase por acaso, que havia se empanturrado de pitaia. E, de repente, alguma coisa mudou naquela menina.

Suas pequenas orelhas despertaram para aquele som. A cabeça virou de lado, como a de um cachorrinho curioso. Pela primeira vez em muito tempo, havia algo que realmente capturava sua atenção. Intrigada, perguntou imediatamente — Que negócio é pitaia?

Aquela palavra exerceu um estranho magnetismo sobre Ângela. Finalmente ela estava interessada em alguma coisa. Curiosa de verdade. Sem a apatia crônica que a acompanhava desde que se entendia por gente.

— É uma fruta, Ângela — respondeu Ana. — Pede para a sua mãe comprar. É uma delícia.

Naquele dia, diferente de todos os outros, em que Ângela pouco se importava com a proximidade do fim da aula, ao contrário das demais crianças, que já se inquietavam muito antes da última sirene , ela parecia ansiosa para deixar aquele lugar. Queria chegar em casa e pedir à mãe que comprasse aquela fruta. Precisava vê-la, descobrir se sua aparência correspondia à imagem que havia criado na própria imaginação.

Todos os dias, às 17h30, a escola estremecia com a última sirene, anunciando o fim do expediente letivo. As crianças saíam correndo, alegres e inquietas para chegar em casa. Ângela, por outro lado, quase sempre era a última a alcançar o portão. Nunca entendia tanta pressa. Ana, que fazia o caminho de volta com ela, já que moravam em quarteirões próximos, aprendera a esperar. Sabia que Ângela sempre saía por último, caminhando devagar, para que as duas pudessem voltar juntas.

Naquele dia, porém, Ângela já estava alguns passos à frente do habitual. Não corria, é claro, mas caminhava com passadas mais largas e apressadas.

— Vamos! Quero falar com a mamãe sobre a pitaia.

Abandonou o ritmo de sempre, aquele devagar quase parando, e acelerou o passo.

— Você está andando mais rápido hoje. Está sentindo alguma coisa?

— Eu só quero chegar em casa e pedir uma pitaia para a mamãe..

Despediu-se de Ana e entrou em casa quase correndo.

— Mamãe! Mamãe! Mamãe! Compra uma pitaia para mim?

A empolgação da garota, porém, foi rapidamente interrompida pela frustração. A mãe nem sabia onde poderia comprar uma pitaia. A fruta não era vendida na feira do bairro nem nas barracas de hortifrúti da região. Além disso, sabia que ela era cara. Tentou convencê-la oferecendo outras frutas que havia em casa: banana, melão e jaca. Ângela franziu a testa com uma expressão de desgosto. A família não podia se dar ao luxo de consumir os produtos mais caros do mercado. Ganhavam uma merreca para passar o mês e faziam verdadeiros malabarismos para manter a menina em uma escola particular de bairro, na esperança de lhe proporcionar um futuro melhor. Acreditavam que a escola pública não ensinava bem e não queriam que a filha crescesse na balbúrdia que imaginavam existir por lá. No mercado, levavam sempre as opções mais baratas. Nada de marcas famosas. Tudo era do mais baratinho e simples. Afinal, a educação da garota era o investimento mais importante.

No dia seguinte, Ângela chegou à escola com o mesmo ar apático de sempre, abatida pela negativa da mãe. Comentou o ocorrido com Ana, que compreendeu imediatamente. — A minha mãe também disse que não vai comprar pitaia. Falou que é muito cara e que nem vende lá no bairro. Só tem naquele mercado dos riquinhos. — Foi nesse instante que o semblante de Ângela se iluminou. Era como se uma lâmpada tivesse se acendido sobre sua cabeça. Ela acabara de ter uma ideia. Desviariam o caminho de casa e passariam pelo mercado dos ricos. Assim, finalmente poderia descobrir como era uma pitaia.

Ana não gostou muito da proposta. As duas estariam saindo do bairro e fazendo um caminho que suas mães jamais permitiriam. Mas era Ângela, sua amiga desde a infância, que nunca a viu demonstrar interesse por absolutamente nada e que, pela primeira vez, constatou que ela realmente estava determinada a conquistar alguma coisa. Então resolveu acompanhá-la naquela pequena aventura, movida pela curiosidade inédita da amiga.

Ângela passou a tarde inteira ansiosa por aquele momento. Assim que a sirene soou, saiu em passos largos em direção ao portão, chegando lá bem antes de Ana. Algo que, em anos de amizade, jamais acontecera. As duas seguiram até o mercado dos riquinhos, morrendo de medo de que algum conhecido as visse pelo caminho. Ao entrarem, Ângela não fazia ideia de onde procurar e foi direto para a seção de produtos de limpeza.

— Vem, Ângela. Não é aí que ficam essas coisas. É na parte das frutas.

A garota apressou-se até a seção indicada. Então Ana apontou para uma fruta que parecia encarar Ângela de volta. Seus olhos se arregalaram e ganharam um brilho incomum. Tudo ao redor pareceu perder o foco, como se o mundo inteiro desaparecesse para deixar apenas a pitaia em evidência. Era linda. Tinha um tom de rosa intenso, quase lilás. Lembrava uma flor ainda fechada, uma rosa prestes a desabrochar. Ângela nunca havia visto uma fruta tão bonita. Estendeu a mão para pegá-la, mas não chegou a alcançá-la. Ana a puxou pelo braço.

— Vamos! Vamos nos atrasar.

As duas precisavam voltar para casa antes que a demora despertasse a atenção dos adultos.

No dia seguinte, Ângela propôs que voltassem ao mercado. Precisava tocar a fruta. Era a única experiência que ainda lhe faltava. Ana achou aquilo perigoso, mas resolveu acompanhá-la mais uma vez, na esperança de que, satisfeita a curiosidade, tudo voltasse ao normal.

Ao chegarem ao mercado, Ângela foi direto para a seção das frutas. Pegou a pitaia com delicadeza. Sentiu sua textura, sua temperatura e, em seguida, aproximou-a do nariz para aspirar seu cheiro. Tudo naquela fruta despertava uma espécie de obsessão. Ela a abraçou, encostou-a ao rosto e fechou os olhos, tentando prolongar ao máximo aquela experiência. Mais uma vez, Ana precisou puxá-la para que não chegassem tarde demais em casa.

No dia seguinte, Ângela quis repetir o ritual. No outro também. E no seguinte. Quando percebeu, já ia ao mercado dos riquinhos todos os dias apenas para ver a pitaia. Lá, ela parecia sair de si. Era como se o mundo inteiro deixasse de existir e restassem apenas ela e a fruta. Arrepiava-se toda vez que a via e reagia sempre como se fosse a primeira vez.

Ana começou a se incomodar com aquela rotina. Estava cansada de inventar desculpas para justificar os atrasos depois da escola. Decidiu que não acompanharia mais a amiga, na esperança de que isso a fizesse desistir daquele hábito. Mas nada mudou. Ângela continuou indo ao mercado dos riquinhos, agora sozinha. Afinal, já conhecia o caminho e sabia exatamente onde encontrar a pitaia. E foi assim durante meses.

Em casa, dizia que a sirene da escola estava com defeito e que, por isso, as aulas terminavam sempre fora do horário. No mercado, já havia explorado a fruta com quase todos os sentidos. Tinha visto sua cor, sentido sua textura, respirado seu perfume e até abraçado sua casca. Faltava apenas um. O paladar.

Depois de tanto tempo visitando a pitaia, ainda não sabia qual era o seu gosto. E essa ausência fazia sua obsessão crescer um pouco mais a cada dia. Seus cadernos viviam rabiscados com desenhos da fruta. Nas aulas de idiomas, encontrava um jeito de incluí-la em todas as frases. Nas de Ciências, tentava relacioná-la a qualquer conteúdo: flora, cadeia alimentar, biodiversidade. Em Geografia, usava o mercado dos riquinhos como exemplo de espaço urbano transformado. Dormia pensando na pitaia. Acordava pensando na pitaia. E uma única pergunta não saía de sua cabeça: — Que sabor tem a pitaia?

Meses e mais meses se passaram, e a rotina da garota permaneceu a mesma. O fim do ano letivo se aproximava e, com ele, as férias escolares. Durante esse período, ela passaria os dias inteiros em casa, entregue ao ócio, sem a desculpa das aulas para visitar a pitaia depois da escola. E o pior de tudo, o ano estava acabando, e ela ainda não sabia qual era o gosto daquela fruta. Como aluna mediana, não ficaria de recuperação. Chegou até a cogitar essa estratégia, imaginando que alguns dias extras de aula lhe permitiriam continuar suas visitas ao mercado. Mas, àquela altura do campeonato, já era impossível ser reprovada.

No último dia de aula, Ângela chegou ao mercado com os olhos marejados. Sabia que aquele seria, provavelmente, o último dia do ano em que veria aquela belezura. Olhou para a pitaia, e o mesmo ritual de sempre começou. A boca salivou. A visão desfocou tudo ao redor. Os ruídos do mercado desapareceram. A pele se arrepiou.

Tudo parecia igual aos outros dias, não fosse pela intensidade daquela sensação, agora multiplicada. Era o último dia do ano letivo, e ela ainda não havia descoberto o sabor da fruta. Naquele instante, perdeu completamente a consciência do que fazia. Nada mais importava. O desejo pela pitaia tomou proporções incontroláveis. Ângela já não dominava os próprios atos. Estendeu a mão e, sem sequer se preocupar se alguém a observava, pegou a fruta, enfiou-a no bolso e saiu correndo sem olhar para trás.

Correu como se um exército de zumbis a perseguisse. Correu muito. Até que, ao chegar a um lugar que julgou seguro, tirou a pitaia do bolso e deu uma enorme mordida. Fechou os olhos para sentir cada detalhe daquela experiência. A fruta era aguada, doce, delicadamente refrescante. Era realmente muito boa.

Ângela saboreou cada pedaço com uma gratidão quase solene. Quando terminou, abriu os olhos e murmurou para si mesma:

— Hum... então é esse o sabor da pitaia?

Voltou para casa assustada com o que havia feito, mas estranhamente satisfeita.

No dia seguinte, tudo voltou ao normal. A apatia retornou, os dias voltaram a se repetir e a vida recuperou sua mediocridade habitual. Ângela nunca mais falou sobre pitaia.

Era como se aquela palavra jamais tivesse atravessado sua vida.


Edilaine Andrade
Enviado por Edilaine Andrade em 05/08/2026
Alterado em 05/08/2026


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