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  Ali, sim, foi homem de verdade! 

E aí, Ninha! Como é que você tá? Tá bem? E a sua mainha? Nunca mais a vi! Mas também, né?! A minha vida agora tá sendo só do médico pra casa. Nem mercado eu tou fazendo mais. A minha vizinha Alaíde é quem faz as compras lá de casa, e ainda limpa as comidas, arruma tudo bonitinho no armário, na geladeira, bota as coisinhas nos potes. Ali me ajuda que é uma beleza! Não só ela, mas também Almerinda, Marcela, Rosi... Tem as meninas de Cássia também, que tão sempre indo fazer um favor pra mim, quando falta alguma coisa lá em casa ou quando os remédios acabam e tenho que buscar.

    Mas nem sempre foi assim, viu, minha filha?! Eu mesma fazia as minhas coisinhas em casa, sempre fui muito ativa. Fazia faxina todo dia, só parava no domingo. Era eu chegar da faxina e já ia ajeitando o jantar de Mário, arrumando a casa, lavando roupa, porque Mário não era muito ligado nessas coisas. Você sabe, né, minha filha? Homem não leva jeito pra essas coisas, não. Nós, muler, é quem sabe fazer tudo certinho. A gente já nasce com o dom de deixar tudo limpo, organizado. Homem, minha filha, nem consegue enxergar a sujeira. Ah, não consegue, não. Mário mesmo dizia que eu não precisava tá fazendo aquilo tudo dentro de casa, já que tudo estava limpo e organizado. Agora veja se tava limpo e organizado mesmo? As roupas de Mário espalhadas pela casa toda, pois, a cada ida ao bar de Munguzá, aquele alemão que morava aqui no Nordeste de Amaralina, ele trocava a camisa. Chegava do bar, tirava a camisa e largava em algum lugar; aí saía pro bar novamente e colocava outra camisa. Haja camisa, viu?! Ainda bem que nunca deixei faltar roupinha pra ele, porque vou te contar, viu?! Ô homem desapegado com essas coisas. Por ele, usava sempre as mesmas roupas, tudo rasgada mesmo. As cuecas, minha filha, eu que não comprasse novas pra ele, saía por aí com as cuecas tudo brenhadas e rasgadas. Aí eu sempre pegava essas coisas fiado na loja de Lú e pagava direitinho. Pegava mais pra ele, que pra mim não tinha muita necessidade, não. Pra quê eu queria roupa? Não saía assim, só pra trabalhar e fazer as minhas coisas, mas não passeava, não ia numa pracinha, num shopping, nem nada. Mário é que saía mais assim com os amigos. Porque comigo ele não gostava de sair muito, dizia que era pra não queimar o filme dele com as novinhas. Esse Mário era engraçado, viu?!

    E você, Binha, conseguiu resolver aquela situação com o pai dessa criança? A sua barriga já tá enorme, viu? Deus benza! Esse vai ser grandão, viu?! Porque o povo lá da sua família é tudo assim grande, homem alto, forte e que dá trabalho, viu?! Esse aí mesmo vai dar trabalho. Quem tiver suas cabritas que segure! Hahahahah! E olhe, ainda bem que você tem a sua mainha, Fátima, que pode tomar conta dos seus meninos. Quando esse tiver maiorzinho mesmo, cê vai poder procurar um trabalho, ir atrás das suas coisas, porque não dá pra depender dos pais dos meninos. Eles também têm outros filhos pra alimentar, né?! E eu sei que a sua mainha e a sua irmã chegam junto contigo. Ali é fechamento. Depois você vai encontrar um homem de fé com você, que te ajude a criar os seus meninos. Mas não pode ter mais outro filho, que quatro já tá de bom tamanho. O importante é achar um cara de bem, que tire o seu nome da boca de Matilde, que feche contigo mesmo, como Mário fazia comigo.

     Mário, minha filha, me tirou do fundo do poço e me deu um nome. Depois que o finado Carlão, que Deus me perdoe, mas ainda bem que já foi pros quintos dos infernos, me tomou à força, minha filha, e ainda me engravidou naquela ocasião... Foi perrengue! Eu me lembro como se fosse hoje.

    Eu tava passando no Beco da Carniça, aquele ali ao lado da entrada da casa de Márcia. Menina ainda, toda franzina, não tinha nem cabelo na xereca ainda, que dirá peito. Tinha ido levar as roupas de ganho pras baronas dali da Pituba. Minha mainha, que na época ainda era viva, lavava as roupas e eu ia levar.Mas bem que mainha avisava que os barões gostavam de procurar gracinha, que, se algum tomasse ousadia demais, era pra eu me picar. E não foi uma nem duas vezes que algum barão da casa onde eu ia levar as roupas tentava alguma gracinha comigo, dizendo que eu era diferente, formosa e exótica, que era pra entrar, que ia me dar mais dinheiro. E eu arregalava o meu zoião e me picava correndo. Eu ia ficar lá pra ver a tragédia? Eu tinha pavor daqueles homem branco véi podre! Aquelas mãos brancas, manchadas, dente amarelado e um fedor de naftalina desgraçado! Nem parecia que a minha mãe lavava roupa tão direitinho.

    Mas, naquele dia, ninha, o perigo não foi na casa dos barões, e sim aqui, no meu próprio bairro. A barona tinha mandado eu levar as roupas à noite, pois trabalhava durante o dia e tinha demitido a menina que trabalhava lá e sempre me recebia. Aí lá vou eu pra Pituba já de noite. Entreguei as roupas. Ela ainda fez cara feia porque chegou no prédio e eu tava lá na porta assustando os vizinhos, segundo ela. Aqueles barões têm medo de tudo. Não podem ver ninguém assim, queimadinho igual a gente, se aproximar, que já ficam tudo assustado. Agora veja se eu tenho culpa deles serem medrosos? Oxe! É cada uma!

    Seguindo o caso aqui, viu, Binha. Eu saí de lá avoada pra chegar logo em casa, que eu ainda ia fazer trabalho da escola. A primeira pessoa da família a passar da quarta série e que, mesmo com tanta coisa pra resolver, tava conseguindo continuar na escola e fazer as atividades que a professora passava. Eu vim tão avoada naquele beco que nem vi que Carlão tava no canto, cheio de cachaça na cabeça.. Passei por ele e só senti alguma coisa me puxando pelos cabelos. Ele me levou praquele vão entre a casa de Dona Josefa e a de Seu Capenga e fez tudo o que queria e podia comigo. Aliás, só o que queria, porque ele não podia fazer aquilo comigo.

    Cheguei em casa de um jeito que, de morena, passei pra branca. A minha mãe percebeu que tinha acontecido alguma coisa comigo e, daqui até eu explicar que Carlão tinha me forçado, eu já tava toda arrebentada de cinto por minha mãe. Ela ficou lá gritando que tinha me alertado. Mas ela só falava dos barões. Como eu ia imaginar que o bêbado do Carlão, que não tinha onde cair morto, podia fazer aquilo comigo?

    E não demorou muito tempo pro meu corpo, que eu quase não tinha, começar a apresentar sinais de que havia mudanças acontecendo na minha vida. Aquela barriga minha, que era quase colada na costela, foi ganhando umas gordurinhas e logo o povo começou a falar mal de mim por onde eu passava. Diziam que logo eu, filha de uma mulher tão trabalhadeira e cuidadosa como a minha mãe, tinha virado uma mulher da vida. Mas de quem somos, se não da vida? Se existe vida, é por causa da gente, que tem o poder de carregar outra vida no corpo e parir ela depois de nove meses.

    Foi nessa época que Mário percebeu que eu tava botando barriga e começou a se aproximar de mim, dizendo que não sabia que eu já era iniciada na vida. Foi me convidando pra tomar café na casa dele, até que, quando eu percebi, estava mais uma vez nos braços de outro homem. Mas dessa vez não forçada, nem violentada, minha filha. Eu queria estar ali. As palavras de Mário foram essenciais pra que eu conseguisse me entregar daquele jeito. Eu tava muito traumatizada, viu, Binha?! Eu nunca tinha coisado, né, minha filha, mas sabia o que era e como era. E a minha primeira coisada não contava, porque o diabo do Carlão tinha me pegado à força e ainda tinha me engravidado. Eu já tava com três meses quando Mário me prometeu assumir aquela criança se eu coisasse com ele. Eu já tava completamente apaixonada, aí foi fácil. Entrou tudo bonitinho, sem doer como doeu no dia de Carlão.

    Nem passou muito tempo e Mário fez o papel dele de homem, de me assumir, como prometeu. Mas quanto ao meu filho, minha filha, ele mudou de ideia. Disse que ia virar piada se assumisse o filho de outro. Aí ele me levou lá num lugar que mais parecia um açougue pra eu tirar a criança. Menina, aquele lugar me deu uma complicação terrível! Depois que eu vim pra casa, comecei a sentir muita dor e uma febre desgraçada. Tive que ir pro hospital. Cheguei lá com uma infecção terrível, minha filha. E, quando as enfermeiras todas desconfiaram do que eu tinha feito, começaram a me maltratar. Nem queriam me dar remédio. Mas eu neguei de pé junto, jurei até pela minha mãe que eu não tinha tentado tirar a criança. Quase que eu me dava mal nessa. Ainda bem que eu tive o Mário depois que voltei pra casa. Ele não pôde ir comigo ao hospital pra não correr o risco de ficar preso.

    Depois disso, minha filha, não pude mais engravidar. Foi só eu e Mário esses anos todos. Mário, como tinha o sonho de ser pai, até que fez uns filhos por aí e tal, mas isso nunca me incomodou, sabe, Binha? Até porque nenhuma criança ficava lá em casa. Mário mal via os filhos... E quanto às mães dos meninos, eu nem sabia direito quem era. O importante é que Mário tava era comigo, dormia comigo, e eu era quem era apontada como a muler dele. Dinheiro, as criança não tiravam muito da gente. Sempre que eu podia, dava uns trocadinhos pra Mário dar pras crianças, já que ele não podia trabalhar, tinha a saúde frágil.

    Lembro quando eu comprava carne pra gente assar ali no quintal e fazer nosso churrasquinho. Eram poucos esses momentos, porque Mário preferia ficar mais no bar com os amigos. Mas, quando eu comprava carne da boa, minha filha, num instante ele ficava lá comigo assando as carnes, passando um tempo junto. Era tão gostoso...Eu gostava muito daquele homem. Gostava de passar tempo junto com ele, de cuidar dele... Pra você ver, minha filha, quando esse homem ficou doente, eu fiquei foi louca! Eu me desdobrei. Parecia que era eu quem tava doente. Precisei até carregar Mário, um homem daquele tamanho. Tenho certeza de que foi ali que eu fiquei com hérnia de disco.Mas, enfim, filha... A gente passou foi coisa! Aquele homem me amou muito! Do jeitinho que eu sou!

     O negócio só desandou quando eu descobri meu câncer de mama. Precisei tirar meu seio esquerdo, ninha, e ficou um buraco no meu corpo. Uma coisa horrível. E você sabe como é homem, né, minha filha? Homem gosta de peitinho durinho, tudo no lugar. A gente já não tava essas coisas mesmo e, depois disso, aí foi que Mário não quis coisar mais comigo. Dizia que tinha nojo.O coitado não aguentava me ver naquela situação, me ver sofrendo daquele jeito. Tanto é que ele se afastou mais de casa nessa época. As vizinhas é que vinham fazer meu curativo, arrumar a minha casa, fazer comida, essas coisas. Nessa hora é mais muler que ajuda, né, filha? Homem é mais disperso dessas coisas. Eu sei que Mário sofreu tanto em me ver assim, que foi passar uns dias na casa de uma tal de Sandrine e nunca mais voltou.

     E eu tô aqui, fazendo exame pra ver se essa peste voltou pro meu corpo. Tô sentindo um caroço no meu seio direito. Tô rezando pra dar tudo certo nesse exame, pra não ser nada demais. Eu acho, minha filha, que, assim que Mário souber que eu tô cem por cento bem, ele volta pra nega velha dele aqui.

Ali, sim, foi homem de verdade!

 

Edilaine Andrade
Enviado por Edilaine Andrade em 22/07/2026
Alterado em 23/07/2026
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